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A DONA DA HISTÓRIA

A vida é um filme. Nós somos os personagens. Os lugares por onde andamos são os cenários. Na história da vida, nós temos automia: podemos modificar o roteiro a qualquer momento, desde que a mudança seja para trazer felicidade aos personagens. Tudo depende do nosso bom senso. Se algo vai mal, é porque não estamos dirigindo bem esse filme. Sim, porque na nossa história, nós somos os diretores...

Essa referência de que a vida é um filme vem sendo utilizada no cinema brasileiro com bastante freqüência, como uma metalinguagem, para brincar com a idéia de transitar entre o imaginário e o real, entre a verdade e a ficção. Produções recentes ilustram essa afirmação: Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes, possui sua música tema, cantada por Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, chamada "O Amor é Filme", em que o cantor leva as pessoas a crerem que a vida é como um filme... "é drama, aventura, mentira, comédia romântica..."; também a comédia "Como Fazer um Filme de Amor", que vai ser lançada no circuito comercial em breve, ultrapassa os limites da ficção pura e passa a dialogar com o espectador.

É nesse clima de metalinguagem, de diálogo, seja com o espectador, seja com o eu interior de cada pessoa, que estréia, com direção do global Daniel Filho, A DONA DA HISTÓRIA. O filme traz Débora Falabela (de Lisbela e o Prisioneiro) como Carolina, quando jovem, e Marieta Severo (de Cazuza), como Carolina já casada, com filhos e netos. Para compor o par romântico, Rodrigo Santoro e Antônio Fagundes, como Luiz Cláudio.

O que chama atenção no filme, no entanto, não é o elenco: o roteiro foi muito bem produzido, com diálogos belíssimos, que se fundem entre o passado e o presente dos personagens. Carolina é uma mulher em crise consigo mesma, que relembra momentos de sua adolescência, quando sonhava em se tornar uma personagem de uma bela história, a sua história. Ela passa a conversar consigo mesma e a perceber que tudo poderia ser diferente, se ela tivesse mudado os rumos da história.

As cenas em que Carolina dialoga com seu eu são feitas entre a Carolina jovem e a Carolina mais madura. Assim, Marieta Severo e Débora Falabela atuam juntas numa mesma cena, interpretando a mesma personagem, como se fossem duas: com anseios, sonhos, angústias diferentes.

A DONA DA HISTÓRIA faz o espectador se situar nas cenas e pensar na vida como se fosse um filme. Vale a pena assistir, pois o filme é reflexivo e engraçado. Muito bom! Para quem gosta de Fernanda Lima, a ex-VJ MTV, é uma boa oportunidade de analisar o trabalho da apresentadora, pois ela interpreta Maria Helena, uma amiga de Carolina, quando era jovem.



Palavras de: Flávia Chiba às 16:40
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[ CONVERSA DE ÔNIBUS ]

Sempre apressada e atrasada, caminhava em direção à parada de ônibus. Tinha que chegar na Federal antes das duas horas, quando começava a aula, mas já tinha visto que não dava mais tempo. O ônibus demorava. Uma senhora, também apressada, resmungava de minuto em minuto: "poxa, está demorando! Cruzei com o ônibus ali, na outra avenida, e pensei que ele já tinha passado... Qual é o caminho de que ele faz?"

O ônibus chegou. Havia poucos lugares vazios. Sentei logo na primeira cadeira, em frente ao cobrador, ou melhor cobradora. Seu nome é Alexsandra. Já tinha me chamado atenção, pois ela destoa de outras cobradoras que já vi. Naquele dia estava usando brincos enormes, com pedras avermelhadas grandes; unhas compridas, pintadas com esmalte vermelho, já descascando; relógio prateado no braço esquerdo e cabelos escovados, presos, certamente por causa do calor.

Simpática, Alexsandra começou a conversar com a senhora que estava ao meu lado. "Nesse emprego, a gente conhece tudo quanto é gente: mal-educada, educada, chata, legal, de tudo!" Dizia isso porque há pouco uma senhora pedira, de forma arrogante, para que ela avisasse quando chegasse a parada do prédio da Justiça Federal. Como se nos conhecesse há muito tempo, Alexsandra contou que uma vez uma mulher brigou com ela e com o motorista, porque ele não tinha parado no ponto onde pedira.

Daí a conversa se desenrolou. Com mania de aspirante a jornalista metida, comecei a fazer perguntas. Decobri que Alexsandra está nessa profissão há seis anos e disse dar graças a Deus: "tem tanta gente por aí sem emprego. Às vezes tenho medo, mas a gente tem que trabalhar". Ela nos contou que não gosta de ficar muito tempo fazendo o mesmo caminho. “Quando já estou há muito tempo numa linha, peço para mudar. Aí vou para o Engenho do Meio, Macaxeira, qualquer lugar”. O motivo é que elas ficam muito conhecidas e visadas. “Tenho medo de confusão”.

Percebi que ela falava isso com um ar de “celebridade”, aproveitando o atual modismo da palavra, como se gostasse da "fama" que sua profissão lhe dá. Ela contou que tem muitas amigas que trabalham no shopping. Quando largam o expediente, voltam conversando com ela dentro do ônibus. Numa dessas conversas, ela percebeu um assalto. Avisou que continuasse a conversa normalmente, mas que dali a alguns instantes, elas iriam ser assaltadas.

“A mulher se apavorou, ficou tremendo e eu continuei a conversa, perguntando como iam os filhos dela”. “De repente”, conta ela, “dois homens se levantaram, apontaram o revólver na minha cabeça e disseram: ‘levante os braços, baixe a cabeça e não se mova. Isso é um assalto!’. “Ai, mulher, esse é o pior de todos!”, disse Alexsandra, rindo.

Não pude ouvir o restante da história. O ônibus já estava parado para eu descer. Envolvida com a história, nem tinha percebido que já tinha chegado à Federal. Sorte minha que outras pessoas tinham pedido parada. Combinamos que ela me contaria da próxima vez que a encontrasse. Esse foi o segundo e último assalto de que Alexsandra foi vítima. No primeiro, ela disse que era inexperiente e estava de costas para o assaltante. Ele levou tudo o que ela tinha: relógio, brincos, colar, bolsa...

Percebi que a vaidade de Alexsandra também tem a ver com a sua profissão. Com aquela farda tão masculina, tudo o que ela puder usar para se sentir mais feminina e bonita é válido, já que ela é tão "observada e conhecida" por todos.

Passei a encarar com outros olhos os profissionais dos transportes coletivos da nossa cidade. Eles têm uma vida sofrida. Com o aumento dos assaltos a ônibus, aumenta o medo, a insegurança não só para nós, passageiros, mas para eles também. Ninguém nunca pensa por esse lado. Nunca pensa que quando o ônibus é assaltado, são eles quem pagam o prejuízo. Isso é um verdadeiro absurdo. Eles não podem e nem devem arcar com essa despesa.

 

Desci do ônibus pensativa. Cheguei na aula atrasada. O filme que a professora disse que ia passar, já tinha começado. Mas o atraso valeu a pena.



Palavras de: Flávia Chiba às 13:05
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